Havia na nossa rua um pobre coitado que vivia a perambular pelas
calçadas, sempre com um sorriso estampado no rosto. Alguns diziam que
era louco - assim mesmo, no duro, sem ponderar nem refletir sobre o peso da própria palavra. Eu, no entanto, diria que ele era um privilegiado, porque a
tudo recebia com aquele sorriso que não lhe abandonava, estivesse de
barriga cheia ou saciado com alguma porcaria que houvesse recolhido do
lixo.
Devo admitir que sentia enorme admiração por aquele rapaz. Enquanto
centenas de outros anônimos lamentavam pelo emprego perdido ou pelos
relacionamentos liquidados, ele sorria ante a sua miséria - ele, que
tinha pleno direito de chorar, sorria como se tudo fosse plenamente
perfeito.
Muitas vezes me peguei me perguntando quais seriam suas origens. Alguma
vez tivera um lar para onde retornar no fim de um exaustivo dia de
trabalho? Alguma vez tivera um emprego? A essa altura sua esposa talvez
estivesse preocupada com o paradeiro do marido desaparecido. Já não
sabia mais o que responder ao filho caçula quando este começava a fazer
perguntas sobre o pai.
Aquele homem sorridente era uma incógnita - não só a mim, mas como a
muitos outros também. Porém talvez fosse eu o único a demonstrar algum
interesse sadio por ele. Os demais transeuntes, quando o viam pedindo
esmolas, sentado na pedra quente da calçada sob o sol do meio-dia, apenas lançavam olhares
intrigados para o seu rosto sorridente e jogavam uma moedinha na lata de
leite que ele erguia para o alto. Havia, é bem verdade, aqueles que
passavam sem ao menos notá-lo, ou aqueles que passavam de
largo, desconfidos de seu sorriso suspeito ou afetados pelo mau cheiro
de suas roupas encardidas, mas esses eram minoria. Ainda assim, era
impossível simplesmente ignorá-lo e evitá-lo, pois aos que agiam dessa
forma ele persseguia por um bom caminho, sacudindo sua lata com as
moedinhas, até que lhe dessem a requerida esmola.
Certo dia ele aparecera na companhia de um vira-lata. Os transeuntes
assustavam-se agora duas vezes: por sua aparência degradada e pelo
animal que ladrava o tempo todo a troco de nada. O homem sorridente e o
cachorro logo se tornaram grandes parceiros, inseparáveis. Aonde um ia, o
outro acompanhava, abanando o rabo, a língua pendurada num canto da
boca. Com o dinheiro das esmolas, o sorridente comprva um único
sanduíche de mortadela e o compartilhava com o
cachorro. Imagino que aquela meia banda de pão sequer bastava
para aplacar a fome de ambos. No entanto, mesmo com os estômagos
roncando, o homem sorria e o cão jamais o abandonava.
Dias depois, uma tragédia se daria, ficando estampada nas manchetes dos jornais mais importantes da cidade. Foi uma dessas manhãs chuvosas.. As ruas e as calçadas haviam
alagdo. O homem sorridente procurava por seu cachorro, que tinha ido
atrás de um abrigo quando tudo começara. Não o chamava pelo nome, que nome não tinha, e mesmo se tivesse, não ser ouvido no
meio daquela tempestade. Então ele soltava urros animalescos para o
alto, na esperança de que o cachorro o atendesse.
Horas depois, encontrou-o entalado numa boca de bueiro, o corpo
encharcado já sem nenhuma vida. Tomou-o nos braços e o carregou para
longe, desfilando pelas ruas enlamedas onde outrora mendigava. Das janelas de suass casas todos
puderam então presenciar a mais curiosa das cenas: um homem vestido em farrapos sorria, porém seus olhos transbordavam lágrimas.
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